Existe um relatório gratuito, emitido pelo Banco Central, que lista todas as operações de crédito do seu CNPJ no sistema financeiro nacional. Saldo por operação, modalidade, situação, instituição credora e — o campo que mais surpreende — as coobrigações em que você figura como garantidor.
Chama-se Relatório de Empréstimos e Financiamentos, sai do sistema Registrato e é alimentado pelo SCR, o Sistema de Informações de Crédito. A maior parte dos empresários endividados nunca o emitiu — e negocia com o banco baseada no número que o gerente informou por telefone.
Este é o passo a passo completo, com os requisitos que costumam travar o acesso de pessoa jurídica.
O que o relatório mostra
O patrimônio pessoal está exposto?
Aval, garantias e bens da família diante da dívida da empresa: o que é proteção legítima, o que é fraude e o que ainda dá para fazer.
| Campo | O que revela | Por que importa |
|---|---|---|
| Instituição credora | Quem é o credor atual da operação | Pode não ser mais o banco original — a dívida pode ter sido cedida |
| Modalidade | Capital de giro, conta garantida, cartão, financiamento | Define contra qual taxa média do BACEN comparar |
| Saldo devedor | Valor informado pela própria instituição | Frequentemente diverge do informado verbalmente |
| Situação | A vencer, vencida, em prejuízo | Antecipa o estágio de provisionamento e a disposição de negociar |
| Coobrigação | Operações em que você é garantidor, não devedor principal | É onde a exposição pessoal do sócio aparece |
| Data de início | Quando a operação foi contratada | Define o período da taxa média a comparar |
Requisitos de acesso para pessoa jurídica
Aqui está o ponto que trava a maioria das tentativas. Para pessoa física basta a conta gov.br em nível prata ou ouro. Para pessoa jurídica, é necessário:
- certificado digital vinculado à conta gov.br do representante;
- conta gov.br em nível prata ou ouro;
- verificação em duas etapas habilitada na conta gov.br.
⚠️ Se a empresa não tem certificado digital, esse é o primeiro item da lista de providências — e não é burocracia descartável: sem ele não há Raio-X, e sem Raio-X toda negociação é feita sobre número informado pela outra parte.
Há ainda a Central de Autorizações do Registrato, que permite gerenciar quem pode acessar os relatórios em nome do titular — útil quando quem opera o certificado não é quem vai analisar o relatório.
O passo a passo
- Acesse o Registrato pelo site do Banco Central ou pelo portal gov.br, na página do serviço “Emitir Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR)”.
- Entre com a conta gov.br do representante legal, com o certificado digital vinculado e a verificação em duas etapas ativa.
- Selecione o CNPJ da empresa. Se o representante tiver vínculo com mais de uma pessoa jurídica, todas aparecem para escolha.
- Escolha o relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR) — é o que traz as operações de crédito. O Registrato oferece outros relatórios, como o de relacionamentos com instituições, também úteis.
- Defina a data-base. O relatório reflete a posição informada pelas instituições na data escolhida. Vale emitir a mais recente disponível.
- Emita e salve o PDF. A emissão é imediata e gratuita.
- Repita para o CPF de cada sócio e avalista. Este passo é o mais pulado e o mais importante: a exposição pessoal não aparece no relatório do CNPJ.
Os outros relatórios que vale emitir na mesma sessão
O Registrato reúne mais de um relatório, e três deles complementam o de Empréstimos e Financiamentos de forma útil para quem está mapeando passivo:
| Relatório | O que traz | Para que serve aqui |
|---|---|---|
| Relacionamentos com instituições | Todas as instituições com que a pessoa ou empresa tem ou teve relacionamento | Revela contas e vínculos esquecidos — inclusive onde há risco de bloqueio |
| Chaves PIX | Chaves cadastradas e a instituição de cada uma | Mapeia por onde entra faturamento, ponto sensível em execução |
| Câmbio | Operações de câmbio registradas | Relevante para empresas importadoras ou exportadoras |
Emitir os quatro na mesma sessão custa alguns minutos a mais e evita a descoberta tardia de uma conta em instituição que ninguém lembrava — que é exatamente onde o bloqueio costuma encontrar saldo.
Se a empresa não tem certificado digital
É o obstáculo mais comum, e há caminhos:
- Emitir o certificado — é o caminho definitivo, tem custo baixo diante do que está em jogo e serve para muitas outras finalidades.
- Emitir primeiro pelos CPFs dos sócios e avalistas, que exigem apenas conta gov.br em nível prata ou ouro. Como o aval aparece como coobrigação, boa parte do passivo da empresa já se torna visível por essa via.
- Usar a Central de Autorizações do Registrato para que o titular conceda acesso aos relatórios a quem vai analisá-los, sem compartilhar credencial.
⚠️ O caminho pelos CPFs é uma boa primeira aproximação, mas não substitui o relatório do CNPJ: operações da empresa sem aval não aparecem nos relatórios das pessoas físicas.
Emitiu o relatório e encontrou operação que não reconhece?
São 3 perguntas — valor do passivo, faturamento e se há garantias. Leva menos de um minuto e você recebe o diagnóstico sem precisar falar com ninguém agora. Fazer o diagnóstico gratuito →
O erro que invalida metade dos levantamentos
Emitir só pelo CNPJ. Em contratos bancários empresariais, é comum que os sócios figurem como avalistas — e o aval não é registrado como dívida da empresa, mas como coobrigação da pessoa física.
O resultado prático é que o relatório do CNPJ pode mostrar um passivo de R$ 800 mil enquanto os relatórios dos CPFs revelam que os sócios respondem pessoalmente por esses mesmos R$ 800 mil, mais outras operações. O passivo não dobra — mas a exposição patrimonial, sim.
Cinco perguntas que o relatório responde e o gerente não
Vale explicitar o que se ganha, porque justifica o esforço do certificado digital:
- Quantas operações eu realmente tenho? Empresas descobrem limites e cartões contratados anos antes, que continuam gerando encargo.
- Quem é o meu credor hoje? Negociar com o banco de origem quando a carteira já foi cedida é conversa sem interlocutor.
- Por quanto eu respondo pessoalmente? A coobrigação no relatório do CPF é a medida exata da exposição do sócio.
- Em que estágio está cada operação? Situação e faixa de atraso antecipam a disposição do credor a conceder desconto.
- Por que meu crédito não destrava? Operação registrada como prejuízo explica a recusa que o nome limpo nos birôs não explicava.
Autenticidade e uso do relatório
O Banco Central disponibiliza serviço de verificação de autenticidade dos relatórios emitidos pelo Registrato. Isso importa em duas situações: quando o documento é levado a juízo e quando é apresentado em negociação, para afastar dúvida sobre a origem do dado.
Vale um lembrete de método: o relatório mostra que a operação existe e em que condição — não mostra o que o contrato diz. Taxas pactuadas, encargos e garantias só saem do contrato. As duas fontes se completam, e é do cruzamento delas que sai o Mapa de Passivo da fase 1 do Método Issa.
Encontrou algo que não reconhece?
Acontece com frequência, e há caminho definido:
- Peça a documentação da operação à instituição indicada como credora — contrato, instrumento de cessão, se houver, e memória de cálculo.
- Use o consumidor.gov.br se não houver resposta adequada. O texto pronto está em como exigir contrato e evolução da dívida.
- Registre demanda no Banco Central quando a instituição não comprovar a operação — o caminho está em RDR do Banco Central.
Perguntas frequentes
A consulta é gratuita?
Sim. A emissão pelo Registrato é gratuita, imediata e não exige envio de documentação.
O banco fica sabendo que consultei?
A consulta ao próprio relatório é direito do titular e não é registrada como evento de crédito nem comunicada às instituições como consulta de mercado.
Consigo emitir sem certificado digital?
Para pessoa física, sim, com conta gov.br prata ou ouro. Para pessoa jurídica, o certificado digital vinculado à conta gov.br é exigido.
O relatório mostra dívida que já foi vendida para fundo?
Mostra a operação e a instituição que a informa ao SCR. Identificar o credor atual é justamente uma das razões para emiti-lo — negociar com quem não é mais o credor é perda de tempo.
Dívida antiga aparece?
O SCR guarda histórico das operações informadas pelas instituições. Operações encerradas e baixadas como prejuízo podem constar, e é uma das informações mais úteis do relatório, porque explica por que o crédito não destrava mesmo com o nome limpo nos birôs.
Fontes
- Banco Central — Emitir Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR)
- Banco Central — Sistema de Informações de Crédito (SCR)
- Banco Central — Gerenciar acessos aos relatórios do Registrato
- Banco Central — Verificar autenticidade dos relatórios do Registrato
Leia também
- Fase 1 · Raio-X: mapear o passivo real
- Como ler o relatório SCR: o que significa cada campo
- O Método Issa de Gestão de Passivos
Sobre a autora
Janaína Issa Gomes (OAB/MG 124.655) atua em direito bancário empresarial, com foco em gestão de passivos, auditoria contratual e proteção patrimonial de sócios e avalistas. Atende empresas em negociação e revisão de contratos bancários a partir de Belo Horizonte/MG.
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