Emitir o relatório é a parte fácil. O choque vem depois: um PDF com dezenas de linhas, siglas, modalidades e uma coluna chamada “coobrigação” que a maioria dos empresários nunca viu na vida.
Este guia percorre o relatório campo a campo e explica o que cada informação significa para quem vai negociar — não para quem vai arquivar o documento.
A estrutura do relatório
O patrimônio pessoal está exposto?
Aval, garantias e bens da família diante da dívida da empresa: o que é proteção legítima, o que é fraude e o que ainda dá para fazer.
O Relatório de Empréstimos e Financiamentos organiza as informações que as instituições reportam ao SCR. As três camadas que importam:
- Resumo por instituição — quanto você deve a cada banco, somando as operações. É a visão que revela a concentração.
- Detalhe por modalidade — como o saldo se distribui entre capital de giro, conta garantida, cartão, financiamento e demais linhas.
- Vencimentos e situação — quanto está a vencer, quanto vencido e em que faixa de atraso.
Modalidade: o campo que define a comparação
A modalidade parece detalhe técnico e é o campo mais importante para a auditoria da fase 2, porque cada uma tem taxa média própria divulgada pelo Banco Central.
| Modalidade | O que é | Observação para a negociação |
|---|---|---|
| Capital de giro | Crédito para custeio da operação, prazo definido | É a linha mais comum e a de comparação mais direta com a série do BACEN |
| Conta garantida | Limite rotativo vinculado à conta | Taxa costuma ser muito superior à de capital de giro — migração é pauta de negociação |
| Cartão de crédito PJ | Rotativo e parcelado | Das modalidades mais caras do mercado |
| Desconto de duplicatas / recebíveis | Antecipação de crédito a receber | Há coobrigação da empresa se o sacado não pagar |
| Financiamento com garantia | Operação vinculada a bem | Taxa menor, mas garantia real — pesa na Matriz de Posição |
⚠️ Se boa parte do passivo está em conta garantida ou cartão, existe uma pauta de negociação antes de qualquer desconto: migrar para modalidade mais barata. É conversa que o banco costuma aceitar porque melhora a qualidade da carteira dele.
Situação e faixa de atraso
O relatório distingue o que está a vencer do que está vencido, e distribui o vencido em faixas de atraso. Essa informação alimenta diretamente o eixo de provisionamento da Matriz de Posição, porque a exigência de provisão acompanha a deterioração da operação.
Há ainda a indicação de prejuízo — operação que a instituição baixou contabilmente. Isso não significa que a dívida deixou de existir nem que a cobrança parou. Significa que o banco já reconheceu a perda no próprio balanço, o que muda radicalmente a régua de aceitação dele numa proposta.
Coobrigação: o campo que assusta
É a informação mais subestimada do relatório. A coobrigação indica que a pessoa figura como garantidora de uma operação cujo devedor principal é outro — tipicamente o sócio que avalizou o contrato da empresa.
Três leituras práticas:
- No relatório do CPF do sócio, as operações da empresa avalizadas por ele aparecem como coobrigação. É ali que a exposição pessoal fica visível.
- O valor não é dívida nova — é a mesma operação, vista do lado do garantidor. Somar CNPJ e CPF duplica o passivo e é erro comum de leitura.
- A exposição, porém, é real — o coobrigado responde com patrimônio próprio, e é por isso que bloqueio de conta e indisponibilidade de imóveis alcançam a pessoa física.
Divergências mais comuns — e o que cada uma indica
A comparação entre o relatório e o que o banco informa é onde estão os achados. As divergências recorrentes e sua leitura:
| Divergência | Leitura provável | Próximo passo |
|---|---|---|
| Saldo do SCR menor que o informado pelo banco | O valor cobrado embute encargos posteriores à data-base, ou encargos discutíveis | Pedir a memória de cálculo do período |
| Operação no SCR que a empresa não reconhece | Contratação não identificada, ou operação de coobrigação | Exigir contrato e comprovação da contratação |
| Instituição diferente da contratada | A dívida foi cedida a terceiro | Exigir o contrato de cessão e a notificação |
| Operação registrada como prejuízo, mas cobrada como ativa | Baixa contábil sem baixa da cobrança — situação normal, mas informativa | Recalibrar a expectativa de desconto |
| Modalidade diferente da que a empresa acredita ter contratado | Migração de linha em renegociação, frequentemente para modalidade mais cara | Comparar com a taxa média da modalidade efetivamente registrada |
Nenhuma dessas divergências é, por si, prova de irregularidade. Todas são, porém, pergunta legítima — e a resposta a elas é o que constrói o laudo da fase 2.
Encontrou coobrigação no seu CPF e não sabia?
São 3 perguntas — valor do passivo, faturamento e se há garantias. Leva menos de um minuto e você recebe o diagnóstico sem precisar falar com ninguém agora. Fazer o diagnóstico gratuito →
Lendo a concentração
O resumo por instituição responde a uma pergunta estratégica antes de qualquer auditoria: quanto do meu passivo está nas mãos de quem também guarda o meu faturamento?
Quando o banco credor é também o banco de recebimento, três riscos se somam: compensação de valores em conta, bloqueio com máxima eficácia e visibilidade total do fluxo de caixa durante a negociação. É a configuração de maior vulnerabilidade — e identificá-la é uma das razões pelas quais o relatório vem antes da conversa.
O que o relatório não diz
Limites importam para não construir estratégia sobre o que o documento não sustenta:
- não traz as cláusulas — taxa pactuada, encargos, multa e garantias estão no contrato, não no relatório;
- não traz a memória de cálculo — a composição do saldo entre principal, juros e encargos precisa ser exigida da instituição;
- reflete o que a instituição informou — divergência entre o relatório e o contrato é achado relevante, e o próximo passo é pedir a documentação;
- tem data-base — é uma fotografia, não posição em tempo real.
Um exemplo de leitura
Suponha o resumo abaixo, extraído de um relatório real em estrutura simplificada:
| Instituição | Modalidade | Saldo | Situação |
|---|---|---|---|
| Banco A | Capital de giro | R$ 380 mil | Vencido — faixa longa |
| Banco A | Conta garantida | R$ 145 mil | A vencer |
| Banco A | Cartão PJ | R$ 62 mil | Vencido — faixa curta |
| Banco B | Financiamento com garantia | R$ 210 mil | A vencer |
| Fundo C | Crédito adquirido | R$ 190 mil | Prejuízo |
O que essa tabela diz, antes de qualquer auditoria:
- Concentração no Banco A — 71% do passivo. Se a conta de recebimento também estiver ali, a vulnerabilidade é máxima.
- Risco de contaminação — havendo vencimento antecipado cruzado no Banco A, o atraso no capital de giro pode vencer a conta garantida e o cartão.
- Modalidades caras — conta garantida e cartão somam R$ 207 mil em linhas de custo elevado. Migração é pauta antes de desconto.
- O Fundo C não é banco — operação já cedida e baixada como prejuízo. Régua diferente, margem maior, e documentação da cessão a exigir.
- O Banco B se preserva — operação em dia com garantia real. Não é onde se briga.
Nenhuma dessas cinco conclusões exigiu ver um contrato. Todas saíram de um relatório gratuito que leva minutos para emitir.
Do relatório para a ação
- Marque as divergências entre o saldo do relatório e o informado pelo banco. Cada uma é um pedido de memória de cálculo.
- Separe as coobrigações e liste quem está pessoalmente exposto e por quanto.
- Identifique as modalidades caras — conta garantida e cartão — e transforme em pauta de migração.
- Confirme o credor atual de cada operação, para saber com quem se negocia.
- Leve a modalidade e o período para a comparação com a taxa média do Banco Central, que é a fase 2 do método.
Perguntas frequentes
O que significa uma operação aparecer como ‘prejuízo’?
Que a instituição a baixou contabilmente como perda. A dívida continua existindo e pode continuar sendo cobrada, inclusive judicialmente. Para a negociação, porém, é informação valiosa: o credor já assumiu a perda no balanço.
Por que uma dívida aparece no meu CPF se quem contratou foi a empresa?
Porque você figura como coobrigado — normalmente na condição de avalista. É a materialização, no sistema do Banco Central, da exposição pessoal que o aval cria.
O relatório do SCR é o mesmo que o Serasa?
Não. O SCR é o sistema do Banco Central alimentado pelas instituições financeiras e reflete operações de crédito. Os birôs privados têm bases e critérios próprios. É possível estar limpo em um e registrado no outro — e é o SCR que costuma explicar por que o crédito não destrava.
Consigo pedir correção de uma informação errada?
Sim. A correção é solicitada à instituição que reportou o dado, que é a responsável pela informação. Não havendo solução, cabe registrar demanda no Banco Central.
Qual data-base devo escolher?
A mais recente disponível, para negociação. Para auditoria de período, vale emitir também datas-base anteriores, que ajudam a reconstruir a evolução da operação.
Fontes
- Banco Central — Sistema de Informações de Crédito (SCR)
- Banco Central — Emitir Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR)
- Banco Central — Verificar autenticidade dos relatórios do Registrato
Leia também
- Como puxar o Registrato e ver todas as dívidas do CNPJ
- Fase 1 · Raio-X: mapear o passivo real
- Seu contrato foi provisionado? Como descobrir
Sobre a autora
Janaína Issa Gomes (OAB/MG 124.655) atua em direito bancário empresarial, com foco em gestão de passivos, auditoria contratual e proteção patrimonial de sócios e avalistas. Atende empresas em negociação e revisão de contratos bancários a partir de Belo Horizonte/MG.
Sua empresa precisa de orientação?
O primeiro passo é entender o tamanho real do problema. Responda 3 perguntas e descubra se existe espaço para revisão, negociação ou proteção patrimonial.
Prefere falar direto? Chame no WhatsApp.

